Clones, Bacilos e Chimpas: o objetivo (em quatro atos)

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Por Domingos Venâncio  •  07 de Abril de 2019

Primeiro ato: O Clone.


1977 - Nikiti ou Tijuca, RJ. Cabelos longos, bandana, costeletas, roupas Chimpa muito justas (cópia fiel dos uniformes Fila de Borg e Vilas), meias longas (chegando até pouco abaixo dos joelhos), grips de gaze coloridos nas raquetes, soprando a ponta dos dedos e “mandando topspin pra cima”! É, eu me sentia o próprio Guillermo Vilas, meu grande ídolo! Nesse mesmo ano, lendo o livro do Vilas, descobri que ele se auto-intitulava “Bacilo de Koch” (bacilo responsável pela tuberculose), em alusão ao brasileiro Thomaz Koch, seu grande ídolo, e de quem ele copiava TUDO, até o jeito de andar. Soube ali, que eu imitava nosso Thomaz por tabela!


Segundo ato: O Bacilo do Bacilo.


2008 - Grand Champions Masters Tour, São Paulo. Durante este torneio, que reuniu grandes nomes da história do tênis mundial, tive a chance de contar a história acima ao próprio Vilas, que, imediatamente passou a me chamar de Bacilo do Bacilo. No último dia do torneio, em um desses momentos mágicos que o tênis (e a vida) nos reservam, encontro-me sozinho, em um papo “téte a téte”, “mano a mano”, por mais de uma hora, com ele.... Guillermo “Grand Willie” Vilas. Enquanto esperávamos por Thomaz (Koch) no bar do hotel, batemos um papo regado a cerveja para mim e (como diria o “bruxo” Roberto Marcher), doses industriais de café para o Vilas. Sou altamente verborrágico (é nova?)… só menos do que meus amigos Carlos Goffi, Marcos (Tico) dos Anjos e Ary Godoy. Por sorte, trabalhando no tênis e cantando rock’n roll, trabalho falando muito, e até dando uns gritos ocasionais (rsrsrsrs). Porém, no papo com o “genial” Vilas, um dos maiores nomes da história do tênis mundial, eu fui TODO ouvidos. Dentre várias lições aprendidas, trago a este artigo uma delas, pertinente ao nosso momento: “Para ter sucesso no tênis, é preciso não queimar etapas. Primeiro, tem que ser campeão do clube, depois, campeão da cidade, campeão da região, do país, do continente, e, para poucos (como ele)... CAMPEÓN DEL MUNDO !!!” Em seu jeito gentil e pausado de falar, “El Grand Willie” carimbava naquele momento uma cena que eu presenciara a tempos atrás.


Terceiro ato: O Turismo.


1993 (ou 94) - Nike Camp, Rancho Silvestre, Embú, SP. Thomaz Koch e Carlos Goffi (olha eles aí de novo) falavam a diversos renomados técnicos brasileiros que achavam desnecessária e/ou prejudicial essa corrida atrás de tantos torneios nacionais e internacionais, antes do jogador ter uma formação básica, vencendo torneios próximos, com baixos custos, sem perder aulas, etc, (sem obviamente desprezar o fato de se jogar torneios mais distantes, de forma racional e organizada, no momento certo). Alguns técnicos, com viagens marcadas para a Europa, States, etc, torceram o nariz e não concordaram muito (é nova?).


Ato Final: O Escrutínio.


2011- Torneio Infanto-Juvenil no Estado do RJ, contando pontos para os rankings FTERJ (à época) e CBT. Jovem jogador classificado entre os 15 ou 20 primeiros do ranking nacional treina em uma quadra secundária enquanto acontecem as finais do torneio. Eu (DV), converso com o técnico ou pai (T/P) desse jogador:

DV -  De quem ele perdeu?

T/P -  Não jogou.

DV- Por quê?

T/P- Nível muito fraco...

DV - Por que não subiu uma categoria?

T/P- Ficaria cansado para o torneio em (cidade X, em outro estado), na próxima semana.

DV - Por que vai jogar tão longe, não é caro?

T/P- Para tentar melhorar o ranking...

DV - Não ganharia mais pontos no ranking se vencesse aqui?

T/P - Mas aqui, o nível está muito fraco!

DV - E se subisse uma categoria?

And Mary go’round and round and round!


Resumo da Ópera:  A Conclusão.


Essa espiral louca descrita acima, no “ato final”, deixa muito claro que os objetivos, por vezes, estão totalmente deturpados, que essa ânsia por viajar, não se expondo a  derrotas em casa, torna as coisas mais caras para os pais, mais cômodas para os técnicos, mais “irreais” para o jovem tenista, o o mais grave: enfraquecem os torneios locais (municipais, estaduais, regionais, enfim...), nos quais os jogadores deveriam pegar “cancha de jogo”, sem grandes custos. Esse ‘enfraquecimento” faz com que esse processo de “turismo tenístico” acabe se tornando realmente necessário, eventualmente.


É... no meio dessa ópera toda, já que (no primeiro ato) lembramos das roupas Chimpa,  vamos relembrar também um “chavão” de um velho Chipanzé, no antigo programa humorístico “Planeta dos Homens”: “Não precisa explicar! Eu só queria... entender!”.

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