Como não posso trocar de filho, troco de treinador

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Por Sylvio Bastos  •  22 de Setembro de 2018

Como muita gente sabe, durante quase trinta anos treinei jogadores de competição, primeiro nos Estados Unidos em 85 e depois no Brasil quando retornei. Atualmente já não faço mais o mesmo trabalho, mesmo tendo alguns juvenis ainda treinando e sendo o Gestor de uma unidade da Escolinha Guga, mudei bastante a minha rotina e meu foco dentro da quadra.

Mas o motivo do meu post hoje é falar um pouco desse universo do treinador e da relação com os pais dos atletas. O título desse post é uma frase que ouvi de um pai e serve muito bem para ilustrar como tudo isso funciona. Esse relacionamento sempre foi muito diferente dos outros esportes, no tênis, na maioria dos casos, os treinadores são contratados por seus jogadores.

Isso significa que se o jogador não estiver satisfeito com o trabalho, ele próprio irá demitir o técnico, isso fica ainda pior quando o jogador juvenil e é dependente da família para suas despesas. Os pais sempre querendo o melhor para seus filhos, interferem, fazendo o que acham melhor para eles, o que nem sempre é o melhor para os atletas. O tempo passa, mas as cenas sempre se repetem, são sempre pais bem-sucedidos nas suas áreas profissionais, tenistas de fim de semana, que quando percebem a habilidade e o talento do filho, começam a investir na criança.

No início, o treinador é sempre um gênio e sabe tudo, mas depois dos primeiros resultados, os pais resolvem interferir, pois acham que adquiriram experiência através dos resultados dos filhos.

“Eu não entendo nada de tênis, mas...” Essa é uma frase que seguramente já foi ouvida por todo treinador de jogador juvenil no Brasil. Simplesmente faz parte da cultura do nosso país e dificilmente isso será mudado. Enquanto houver o sentimento de se estar pagando pelo serviço, haverá a necessidade de se interferir no trabalho, com a desculpa de ser pelo bem do próprio filho. Normalmente essas interferências estremecem a relação, tiram a credibilidade do técnico junto ao jogador, além de atrapalhar toda uma sequência de planejamento do trabalho.

O final dessas histórias é sempre muito parecido. Os filhos amadurecem com o tempo, se cansam da arbitrariedade dos pais e acabam parando de jogar, lamentavelmente.

Para finalizar, gostaria de deixar três pontos para serem refletidos por um longo tempo, afinal de contas o que está em jogo é a felicidade do nosso bem maior, nossos filhos. Primeiro vou repetir uma frase que ouvi do Fino (Meligeni) e achei genial, entre cinco e 12 anos é o momento das crianças se apaixonarem pelo esporte, respeitem esse momento, criem situações que permitam que isso aconteça, isso acontecendo, seus filhos terão um esporte para toda a vida.

Depois disso, levem todo o tempo do mundo que for necessário, pesquisem, perguntem, mas quando decidirem quem será o professor ou treinador dos seus filhos, confiem nele, deixe-os trabalharem, seguramente eles são muito mais capacitados que você para essa função. Por último, ouçam mais seus filhos, o tênis é um esporte fantástico, que ajuda desde muito cedo as crianças à tomarem decisões, onde decisões erradas são punidas com erros e derrotas, isso faz amadurecer desde muito cedo.

Depois de cinquenta e cinco anos de vida, dos quais quarenta e sete foram passados dentro de uma quadra, posso afirmar com muita certeza e segurança que o tênis proporciona lições e ensinamentos que levamos para toda a vida, o esporte transforma as pessoas, o tênis consegue fazer ainda mais, tirando de nós o que temos de melhor, até mesmo aquilo que nem sabíamos que era possível alcançar!

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