Equipe brasileira de tênis se prepara para as Olimpíadas

Início    /    Rio 2016    /    Equipe brasileira de tênis se prepara para as Olimpíadas
Por Raphael Favilla  •  10 de Julho de 2016

O Centro Olímpico de Tênis passa pelos últimos ajustes para ficar pronto e receber os duelos entre raquetes, que acontecem de 6 a 14 de agosto no Rio de Janeiro. São 16 quadras na Barra da Tijuca, das quais nove permanecerão no complexo após as disputas. A maior delas, com capacidade para 10 mil lugares, é uma das que ficam como legado à cidade.

Será a 15ª vez que o tênis vai fazer parte oficialmente do cronograma olímpico. A modalidade estava presente em Atenas, na edição inaugural de 1896. Os Jogos de Seul, em 1988, representaram a volta do tênis como esporte olímpico após um longo hiato de mais de 60 anos. Desde então, vem sendo disputado em todas as edições. O calendário do Rio traz confrontos de duplas mistas, mantendo uma tradição há muito abandonada e retomada apenas no programa dos Jogos de Londres.

Muitos países já definiram suas equipes e os nomes que irão preencher as 172 vagas da modalidade. Serão distribuídas 15 medalhas aos atletas, três para cada categoria: simples masculino, simples feminino, duplas masculinas, duplas femininas e duplas mistas.

Os melhores jogadores do mundo estarão presentes nos Jogos de 2016. Brigar pelo ouro olímpico é visto pelos tenistas como uma oportunidade excepcional na carreira. Muitos consideram as Olimpíadas como o quinto Grand Slam. A exceção, talvez, fique por conta do jovem austríaco Dominic Thiem, o único top 10 que não virá ao Rio. A sensação de 22 anos declarou recentemente que o fato de o torneio ter deixado de valer pontos para o ranqueamento da ATP acabou rebaixando os Jogos, tornando a competição uma mera "exibição". Novak Djokovic faz coro e também defende a pontuação nas Olimpíadas. Mas apesar das críticas, o sérvio está confirmado e vem ao Brasil obstinado a voltar para casa com a primeira medalha olímpica na bagagem.

Para atingir o sonhado ouro, o favorito Djokovic terá que superar seus maiores rivais. Um deles, Roger Federer, também quer muito essa medalha inédita. Campeão jogando duplas em Pequim, Federer deve chegar forte ao Brasil. Após disputar 65 torneios majors seguidos desde 1999, o suíço interrompeu a série quando decidiu não jogar em Roland Garros este ano, preferindo se poupar e tratar das costas. Inscrito para todas as disputas, o Leão da Montanha vem com tudo para sua quinta edição olímpica. Jogará simples, repetirá a dupla campeã com Stan Wawrinka em 2008 e fará duplas mistas com Martina Hingis, de volta aos Jogos após Atlanta, há vinte anos.

Outro que tem o Rio 2016 como prioridade é Nadal. Ainda se recuperando de uma lesão no punho esquerdo, o espanhol decidiu ficar de fora de Wimbledon. Dedicação total ao tratamento para não correr riscos de ausentar-se dos Jogos Olímpicos. Miúra não participou de Londres 2012, “um dos momentos mais tristes da carreira” segundo o próprio. Assim como Murray, Nadal vem ao Brasil em busca de seu segundo ouro.

Se nas categorias do masculino o franco favoritismo fica em aberto, não podemos dizer o mesmo do feminino. Ela, sempre ela, Serena Williams, figura no topo em todas as listas que trazem as candidatas ao título. E não é para menos. A atual líder do ranking da WTA tem 21 troféus conquistados em torneios Grand Slam. Além disso, ganhou dois ouros em Londres 2012, jogando simples e ao lado da irmã Venus – com quem, aliás, tem mais duas conquistas em Olimpíadas, nas edições de Pequim e Sydney. Existem, ainda, algumas situações não definidas que, se confirmadas, podem deixar o caminho mais fácil para o quinto ouro da norte-americana. Falo da suspensão de Sharapova por doping, da lesão que tirou Azarenka de Wimbledon, e do imbróglio envolvendo a dinamarquesa Caroline Wozniacki, que só poderá vir ao Rio se for por convite.

Serena, porém, ainda não venceu nenhum Grand Slam em 2016. Favorita nas finais, amargou dois vice-campeonatos este ano ao perder o Australian Open para a alemã Angelique Kerber e Roland Garros para a espanhola Garbiñe Muguruza. Será que a zebra ganhará listras verdes e amarelas no Rio?

Brasileiros

A delegação brasileira será a maior da história do país em Olimpíadas.

Para definir as vagas para os Jogos, a Federação Internacional de Tênis (ITF) utiliza como base o ranking mundial, fechado no dia 6 de junho deste ano. Em ambas as categorias de simples, os 56 melhores ranqueados entram de forma direta na competição. Os critérios para a seleção são um verdadeiro quebra-cabeça. Métodos que seguem outras tantas e diversas normas, que acabariam por complicar o texto ao invés de torná-lo claro ao leitor. Caso haja interesse em se aprofundar, você poderá acessar as regras completas no documento fornecido pela Federação.

O Brasil tem tenistas na lista provisória para disputar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro e aguarda decisão dos organizadores. Dois deles, Rogério Dutra Silva e André Sá, esperam apelação diante do Comitê da Federação Internacional do Tênis. A confirmação final virá dia 15 de julho, quando a ITF vai avaliar todos os recursos.

Rogerinho tem pendente número mínimo de participações em Copa Davis, o que deve ser cumprido caso se confirme sua convocação diante do próximo confronto contra o Equador, entre os dias 15 e 17 de julho. Thomaz Bellucci está confirmado na equipe para simples.

Nas duplas teremos Marcelo Melo com Bruno Soares e André Sá com Bellucci. Como Sá não participou dos últimos anos da Davis teve que entrar com apelação por intermédio da Confederação Brasileira de Tênis. Caso seja aceito, André Sá será o primeiro tenista do Brasil a disputar quatro edições olímpicas. O mineiro já vestiu as cores do Brasil em Atenas, Pequim e Londres.

No feminino, Teliana Pereira será a única representante em simples utilizando a regra do país-sede. Paula Gonçalves não entrou na modalidade, mas jogará duplas com Teliana. A definição das duplas mistas virá apenas na semana do torneio que larga dia 6 de agosto.

O que podemos esperar da atuação de nossa delegação nos Jogos? É quase um consenso geral entre os especialistas: os brasileiros têm chances remotas nas competições simples. O projeto de construção das quadras olímpicas optou por seguir o calendário das federações, determinando a escolha pelo piso rápido para as disputas. As Olimpíadas acontecem em plena temporada de quadra rápida. Além da determinação natural em conquistar um ouro olímpico, os grandes tenistas do mundo estarão em preparação para o US Open, cujo início ocorre duas semanas após a finalização da Rio 2016. É difícil imaginar que nossos jogadores possam fazer frente aos top 10 do mundo em ponto de bala. Fora que os melhores resultados dos brasileiros são em torneios no saibro.

Pesa contra também o retrospecto olímpico negativo. Nenhum brasileiro, nem mesmo Gustavo Kuerten ou Maria Esther Bueno, conseguiu conquistar uma medalha. Se por um lado, a razão dos números assenta a tendência de um pódio gringo, a emoção aponta para outro consenso: a máxima de que nós, brasileiros, não desistimos nunca.

A torcida pode se apegar a dois fatores que ajudam a acreditar no ditado que caiu na boca do povo. Um deles é o fator casa. O outro é Meligeni.

E por que Meligeni? Porque a história do Fininho nas Olimpíadas de Atlanta 96 é um exemplo de superação contra as expectativas. Um exemplo de que a zebra pode acontecer, sacando os prognósticos para bem longe. E os Jogos Olímpicos costumam reservar generoso espaço para a imprevisibilidade...

Beneficiado pela desistência de jogadores melhor ranqueados, Fernando Meligeni chegou aos Jogos de Atlanta com 25 anos de idade, ocupando a posição de número 62 no ranking da ATP. Entrou como azarão e quase saiu com a medalha, terminando em quarto lugar. Detalhe: a disputa foi em quadra rápida, e sua especialidade sempre foi o saibro. Quem não se lembra do jogão nas oitavas contra o australiano Mark Philippoussis, dono do saque mais poderoso da época e um dos favoritos às medalhas? Fininho não tomou conhecimento e venceu o gigante por dois sets a um, parciais de 7-6, 4-6 e 8-6. Fica, então, a esperança da boa surpresa pintar no Rio para os brasileiros. Vai que a história se repete?

Agora, chance real de medalha temos nas duplas masculinas. O Brasil tem dois especialistas no assunto. Os tenistas Marcelo Melo e Bruno Soares acumulam títulos na categoria e muita história para contar. Chegam ao Rio com maturidade e bagagem, vivendo boa fase nas carreiras. Não podemos esquecer que Bruno venceu, ao lado do britânico Jamie Murray, seu primeiro Grand Slam em dupla masculina este ano, no Aberto da Austrália. No mesmo torneio, levantou outro troféu com a russa Elena Vesnina jogando duplas mistas. Já Melo iniciou 2016 como o numéro 1 do mundo, credenciado pelo espetacular ano anterior. Em 2015, entre outros títulos, conquistou Roland Garros com o parceiro Ivan Dodig.

A parceria entre Melo e Soares é antiga. Os dois nasceram na mesma cidade, Belo Horizonte. Ambos têm quase a mesma idade, um com 32 o outro com 33. Nutrem paixão pelo mesmo time, o Cruzeiro. Conheceram-se e tiveram as primeiras aulas e treinamentos no mesmo lugar, o Minas Tênis. Jogaram profissionalmente juntos as temporadas de 2010 e 2011. E, acima de tudo: são grandes amigos.

No Rio a parada não será fácil. A presença quase certa dos irmãos americanos Bob e Mike Bryan, a melhor dupla do tênis em todos os tempos e atuais campeões olímpicos, é indicativo do que vem pela frente. Outras duplas nacionais prometem jogos duros. A parceria entre Feliciano e Marc Lopez rendeu aos espanhóis o título de Roland Garros este ano. A segunda melhor dupla no ranking, dos franceses Pierre-Hugues Herbert e Nicolas Mahut, é especialista em quadra rápida e venceu o último US Open. A rivalidade com outros sulamericanos também promete na categoria. Os hermanos costumam formar boas duplas, e a intimidade do jogo entre Cabal e Farah pelo duo da Colômbia é prenúncio de pedreira aos adversários.

Atuando em parcerias distintas, Melo e Soares ainda não decidiram qual será o último torneio antes dos Jogos em que irão formar dupla. A certeza é que será onde houver quadra rápida. As opções mais prováveis são o piso do Minas Tênis Clube, no confronto contra o Equador pela Copa Davis, de 15 a 17 de julho, ou o do ATP 1000 de Toronto, de 23 a 31 de julho. De qualquer forma, a necessidade de um trabalho de adaptação existe. A Davis em Minas será realizada em arena coberta e altitude de 852 metros. Os Jogos Olímpicos serão ao ar livre e no nível do mar, o que deixa a bola mais lenta. Toronto tem altitude de 76 metros e competição também ao ar livre, mas com a desvantagem de exigir uma longa viagem.

Bruno Soares disputou o evento teste, que aconteceu em dezembro no Centro Olímpico de Tênis, e aprovou a quadra ligeiramente áspera. As condições favorecem e premiam o jogo de duplas técnicas, que privilegiam as jogadas de efeito. O piso rápido ao nível do mar fica mais parecido com o de saibro, porque a bolinha perde velocidade. Ótimo para Bruno e o Girafa, que com ótimo saque, golpes fortes, e boa movimentação de pernas, tem tudo para trazer a sonhada medalha.

Publicidade