Sonho adolescente?

Início    /    Grand Slam    /    Sonho adolescente?
Por Raphael Favilla  •  11 de Setembro de 2021

Os fãs de tênis estão em polvorosa com os últimos feitos vindos do US Open. No Twitter, alguns, na brincadeira, vão além e exigem do DJ do evento que as finalistas desta edição entrem em quadra ao som de "Teenage dream", da cantora pop Katy Perry. E faz todo sentido. Em tradução literal, um dos versos da canção diz “você me faz sentir como em um sonho de adolescente”. Não é por menos. O Aberto dos Estados Unidos 2021 ficará marcado para sempre como sendo deles, dos garotos e, principalmente, das garotas recém-saídas da puberdade.


Um Grand Slam marcante se faz com bons duelos e partidas movimentadas, é verdade. Mas dois ingredientes especiais têm o poder de elevar uma mera edição à condição de um evento histórico: a quebra de recordes ou tabus, e boas histórias a serem contadas. E esta edição está repleta destes sabores.


Era de se esperar novidade na chave feminina do US Open, mas a final deste sábado superou de longe qualquer expectativa. De um lado, Leylah Fernandes, de 19 anos recém completados, que eliminou sucessivamente Naomi Osaka, Angelique Kerber, Elina Svitolina e Aryna Sabalenka, todas no terceiro set. Do outro, Emma Raducanu, de 18 anos e 10 meses, que se torna a primeira tenista oriunda do qualificatório, entre mulheres ou homens, a atingir uma final de Grand Slam. Não dava para ser mais sensacional.


É bem verdade, a edição deste ano começou marcada pela ausência de lendas como Roger Federer, Rafael Nadal e as irmãs Venus e Serena Williams. Sem poder cravar que estas faltas tenham sido determinantes para uma segunda semana repleta de novos rostos em Nova Iorque, o fato é que tivemos oitavas de final bastante renovadas. Além de Leylah Fernandez e Emma Raducanu como destaques na chave feminina, o mundo pôde apreciar todo o talento do jovem espanhol Carlos Alcaraz.


“Vivemos um momento de transição, tanto no masculino quanto no feminino. Acontece de tempos em tempos, não seria diferente. A ausência de nomes como Federer, Nadal e Serena sem dúvida facilitou a aparição de novos nomes, principalmente no aspecto emocional. Fez os demais acreditarem que poderiam ir mais longe, fazer história chegando em uma semi, quartas de final de um Grand Slam. As novas gerações estão vindo por obrigação de renovação, de substituição dos espaços deixados pelos tops e mesmo dos grupos intermediários, no caso dos homens. Entre as mulheres essa transição já vem acontecendo há alguns anos, pois não teve ninguém entre a Serena e as demais. E nos últimos quatro, cinco anos estamos vendo várias tenistas aparecendo e até vencendo os Grand Slams, mas que depois não sustentam o desempenho e outras surgem”, analisou Domingos Venancio, ex-tenista profissional e comentarista do SporTV.


Alcaraz, 55º no ranking da ATP, foi responsável por eliminar o número 3 do mundo Stefanos Tsitsipas em uma batalha de cinco sets e com 4h07 de duração. “Não tenho palavras para explicar como estou me sentindo agora. Não acredito que venci Stefanos Tsitsipas em uma partida épica. Para mim é um sonho que se tornou realidade”, disse o tenista de 18 anos após sua primeira vitória contra um top 10.



Jovem espanhol comemora uma das vitórias no US Open


Jogador mais jovem nas oitavas de um Grand Slam desde Andrei Medvedev em 1992, e o mais novo nesta fase do US Open desde Michael Chang em 1989, Alcaraz não escapa de inúmeras comparações com os feitos de Rafael Nadal. Com personalidade, ele afirma buscar seu próprio estilo. “Não copio nenhum estilo de jogador. Apenas jogo meu jogo. Mas se tiver que dizer um jogador parecido com meu jogo, acho que é o Federer. Eu acho parecido com o meu jogo, porque estou tentando ser agressivo o tempo todo”, completou.


Alcaraz deu adeus à competição nas quartas de final, quando um duelo bastante esperado foi precocemente abreviado. O canadense Felix Auger-Aliassime estava em vantagem no placar contra o espanhol, e liderava por 6/3 e 3/1 quando o jovem rival abandonou por conta do desgaste acumulado pelas duas últimas rodadas. Aliassime avançou às semifinais mas caiu diante do russo Daniil Medvedev, que pela segunda vez nas últimas três temporadas disputará a final do US Open, aos 25 anos.


Aliassime encerra sua melhor campanha em torneios Grand Slam. O jovem canadense de 21 anos irá subir no ranking e chegar ao 11º lugar. Ele poderia entrar no top 10 se fosse finalista em Nova Iorque. Até então, o melhor resultado de sua carreira em competições deste porte havia sido a campanha até as quartas na grama de Wimbledon.

A next generation também marcou presença na segunda semana com outros jovens como Jannik Sinner, Jenson Brooksby e Iga Swiatek, que fizeram suas melhores campanhas no torneio aos 20 anos. Nesta edição vimos mesmo até tenistas mais experientes, mas que nunca haviam chegado tão longe em Nova Iorque, também contribuindo para um cenário de mudanças.


Grande decisão de gente nem tão grande assim


Será apenas a oitava final de Grand Slam na Era Aberta entre duas tenistas com menos de 20 anos. A última vez que isso aconteceu foi no US Open de 1999, quando Serena Williams tinha 17 anos e superou Martina Hingis, de 18. Apesar de serem da mesma geração, a canadense e a britânica nunca se enfrentaram pelo circuito profissional. Será também a primeira decisão de US Open desde a Era Aberta sem uma cabeça de chave em quadra.


Há exatos vinte anos, uma série de ataques terroristas nos Estados Unidos marcariam para sempre o dia 11 de setembro na memória de milhões de pessoas em todo o planeta. Como esquecer aqueles dois aviões protagonizando cenas tão assustadoras quanto impressionantes, sendo lançados contra as duas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque? Você lembra onde estava naquele fatídico dia em 2001? Se está perto de completar ou já passou dos trinta anos de idade, é bem provável que a resposta seja sim.


Para colocar em perspectiva de quão espetacular é o desempenho de Fernandez e Raducanu no US Open: elas não eram nascidas naquele 11 de setembro de 2001, naquela tragédia que fez escalar, em boa parte do Ocidente, a tensão e a intolerância contra estrangeiros, principalmente aqueles de religiões muçulmanas.


Vinte anos depois, na mesma Nova Iorque, é a vez de duas garotas nascidas em 2002 serem eternizadas pelas câmeras de TV. Desta vez com saques, voleios e todo tipo de jogadas. Imagens transmitidas da Arthur Ashe, por ironia do destino, para o mundo inteiro, trazendo uma grande lição geopolítica para uma sociedade tão intolerante com imigrantes nos últimos anos: Emma Raducanu, britânica de mãe chinesa e pai romeno, e Leylah Fernandez, canadense de mãe filipina e pai equatoriano.


Falemos um pouco mais dos feitos de Emma e Leylah. Apresentações aqui não são dispensáveis. De onde surgiram essas meninas e todo esse talento, que há uma semana impressiona os amantes do tênis?


Emma defende as cores da bandeira britânica, mas nasceu em Toronto, Canadá. Seu pai Ian é romeno, sua mãe Renee é chinesa. Ambos trabalham no mercado financeiro. Aos dois anos de idade se muda para Londres, e na infância experimenta aulas de balé, natação, equitação, golfe, esqui e até motocross. Ingressa na academia Bromley Tennis com apenas cinco anos. Lá descobre sua verdadeira paixão e logo vira fã de Na Li. Depois viria a colar pôsteres de Simona Halep em seu quarto.


“Minha avó Mamiya ainda mora no centro de Bucareste. Para lá volto algumas vezes por ano e fico com ela. É muito bom. A comida romena é inacreditavelmente boa. E a comida da minha avó também é especial. Tenho laços com Bucareste”, contou ao portal do US Open.



Emma faz história ao sair do qualifying e chegar à final em NY


Emma vinha equilibrando sua carreira no tênis com os estudos para os níveis A durante os últimos meses. Ela até optou por não viajar para torneios de nível inferior no exterior para fazer exames de matemática e economia na Newstead School, com sede em Londres. Quando jogou em Wimbledon este ano, a faculdade parabenizou-a em sua conta oficial no Twitter. Prodígio no tênis, prodígio nos estudos. Emma também alcançou, claro, seu sonhado nível A.


Raducanu já havia jogado em Wimbledon como juvenil. Lá, em 2018, chegou às quartas, caindo para a polonesa futura vencedora de Roland Garros, Iga Swiatek. O Aberto dos Estados Unidos é apenas o segundo Grand Slam que Raducanu disputa na chave principal e já é finalista.


Ela havia recebido um convite para jogar em Wimbledon e venceu três jogos, antes de abandonar nas oitavas de final. Desde então, jogou o WTA 500 de San Jose como convidada e partiu para dois torneios menores no piso duro, um ITF W100 em Landisville e o WTA 125 de Chicago, em que conseguiu ritmo de jogo e bons resultados nas quadras sintéticas.


No US Open deste ano, Emma Raducanu não perdeu um set sequer em toda sua campanha. São nove vitórias seguidas no torneio, sendo três no qualificatório e mais seis na chave principal. Adotando um estilo de jogo ofensivo, com segundo saque forçado e devoluções agressivas, quase sempre pelo centro da quadra, ao melhor estilo masculino, Emma conseguiu vitórias muito contundentes contra nomes como a espanhola Sara Sorribes, a norte-americana Shelby Rogers e a suíça Belinda Bencic, número 12 do mundo e atual campeã olímpica. Para chegar à grande final, bateu a grega Maria Sakkari por 6/1 e 6/4 em apenas 1h20 de partida. Muito eficiente no uso das paralelas, tem um forehand veloz e seus voleios são quase tão impecáveis.


A ótima campanha já a coloca no top 50 e faz com que ela ultrapasse Johanna Konta no posto de número 1 britânica. Começou no qualifying como 150 do mundo, e sequer acreditava que teria chance de ir tão longe no Grand Slam norte-americano.


Em julho deste ano em Wimbledon, aos 18 anos e 9 meses, Raducanu era a número 366 do mundo. Lá se tornou a mais jovem da Era Aberta a atingir as oitavas. Até aqui, jamais havia chegado sequer numa final de torneios nível WTA, nem mesmo os de US$ 125 mil.


“A verdade é que não esperava estar aqui de jeito algum, tanto que tinha reservado o voo de volta ao meu país para depois do qualificatório”, contou Raducanu, que pode quebrar um enorme jejum do tênis feminino britânico nos quatro principais torneios do circuito. “Acho que ter tantos jogadores jovens chegando é muito bom para o tênis, porque mostra o quão forte é a próxima geração. Acho também que todos nos inspiramos a jogar melhor”, concluiu.


Se vencer neste sábado, ela repete o feito de Virginia Wade, campeã em 1976 e única mulher britânica a disputar a final do torneio na Era Aberta. Além disso, se torna apenas a segunda jogadora de fora do top 100 a disputar uma final de US Open. Um triunfo a leva de forma meteórica para o posto 23 do ranking.


“Agora estou mostrando que tudo é possível se você acreditar. Aproveito cada jogo e entro em quadra pronta para me divertir, sabendo que pode ser minha última partida no Arthur Ashe este ano. Para mim é fundamental manter a rotina e aquele piloto automático que uso quando participo de torneios, isso me ajuda a manter o foco”, observou a jovem britânica.


A adversária de Emma também nasceu no Canadá mas, diferentemente de Raducanu, Leylah defende as cores do país americano. Cada vez mais confortável e confiante nos grandes palcos do tênis mundial, Leylah Fernandez brilhou no US Open deste ano.


Vale falar novamente. Fernandez triunfou sendo algoz das campeãs Naomi Osaka e Angelique Kerber, e também da top 5 Elina Svitolina. Para chegar à decisão, a canadense 76ª do ranking também derrubou a número 2 do mundo, Aryna Sabalenka, marcando parciais de 7/6 (7-3), 4/6 e 6/4 em 2h20 de partida.


“Desde muito jovem, eu sabia que seria capaz de vencer qualquer uma que estivesse na minha frente. Mesmo praticando esportes diferentes, eu sempre fui muito competitiva. Desde quando eu queria ganhar do meu pai no futebol, mesmo que fosse impossível. Sempre acreditei nisso. Mesmo quando a Naomi conseguiu uma quebra no segundo set, eu ainda acreditava. Disse a mim mesma que estava cada vez mais perto de encontrar uma solução e teria a chance de voltar para o jogo”, disse após a vitória sobre a japonesa.


Fernandez é a segunda canadense a disputar a final do US Open e tenta repetir o feito de Bianca Andreescu, campeã em 2019, quando também tinha só 19 anos. A impressionante campanha em Nova Iorque faz com que Fernandez dê um salto no ranking. Ter chegado à final já a coloca entre as 30 melhores do mundo e o título pode levá-la ao top 20. Leylah tem apenas um título de WTA, conquistado no primeiro semestre deste ano em Monterrey. Ela também marcou a quarta vitória contra top 10 na carreira, sendo a terceira no torneio.


As vitórias em si já seriam extraordinárias, mas a forma com que Leylah se comporta em quadra fala ainda mais. Joga com alegria e leveza, interage com o público, concentrada. Sem gritaria ou exageros. De 1,68m, faz alavancas perfeitas para arrancar saques eficientes e winners desconcertantes. De repente, solta uma curtinha ou decide o ponto bem construído no voleio. Dá gosto vê-la jogar.


“Uma professora me dizia para abandonar o tênis. Que eu nunca conseguiria, e que devia apenas me concentrar na escola. Fico feliz que ela tenha me dito isso. Todos os dias aquela frase volta à minha cabeça e penso. ‘Vou continuar, ir em frente, prová-la que posso conseguir tudo que sempre sonhei”, lembrou.


Créditos fotos:


Capa - Darren Carroll/USTA

Emma Racucanu - Garrett Ellwood/USTA, Darren Carroll/USTA

Leylah Fernandez - Darren Carroll/USTA

Carlos Alcaraz - Andrew Ong/USTA


Publicidade